Lesões em ocorrências físicas: quando o controle policial termina em ferimento

COMBATIVES RESEARCH CS-001 CONTROLE FÍSICO POLICIAL

ARTIGO 06 · LESÕES EM OCORRÊNCIAS FÍSICAS 

Quando alguém se lesiona durante uma ocorrência física?

 

Saber que houve uma lesão é importante. Para compreender uma ocorrência, porém, existe outra pergunta: em que momento ela aconteceu?

Uma lesão pode ocorrer durante uma tentativa de fuga, na queda, durante a resistência no solo, na disputa pelo controle dos braços, durante o algemamento ou em outro momento da intervenção.

O mesmo vale para o policial. Uma lesão pode ocorrer antes de qualquer técnica de controle, durante uma agressão, na aproximação, na queda ou enquanto tenta conter uma pessoa que continua resistindo.

Por isso, lesão é um resultado importante, mas o resultado sozinho não reconstrói a ocorrência.

DISTINÇÃO

Saber que houve uma lesão não significa saber quando, como ou por que ela aconteceu.

SEQUÊNCIA

O momento da lesão muda a interpretação.

Dois registros podem terminar com a mesma informação: “houve lesão”.

Isso não significa que descrevam eventos semelhantes.

Em uma ocorrência, a pessoa pode sofrer uma escoriação ao cair enquanto tenta fugir. Em outra, uma lesão pode aparecer durante uma disputa física prolongada no solo. Em outra, o policial pode ser lesionado por uma agressão antes mesmo de conseguir estabelecer controle.

Quando esses eventos são reduzidos a uma única variável final, parte importante da dinâmica desaparece.

Resultado sem sequência descreve o que terminou. Não necessariamente explica o que aconteceu.

HOME OFFICE · INGLATERRA E PAÍS DE GALES 

Sistemas nacionais já registram lesões dos dois lados da ocorrência.

As estatísticas nacionais de uso da força da Inglaterra e do País de Gales registram separadamente lesões sofridas pelos policiais e pelas pessoas submetidas ao uso da força.

No período entre abril de 2023 e março de 2024, foram registrados 747.396 relatórios de uso da força. Cada relatório corresponde ao uso da força de um policial sobre uma pessoa e pode incluir múltiplas táticas.

Nesse conjunto, lesão do policial foi registrada em 3% dos relatórios. Lesão da pessoa submetida ao uso da força foi registrada em 4%.

01 747.396

relatórios de uso da força registrados no período 2023/24.

02 3%

registraram lesão do policial.

03 4%

registraram lesão da pessoa submetida ao uso da força.

Entre as 31.900 ocorrências com lesão registrada para a pessoa, 91% foram classificadas como lesões menores e 2% como graves; em 7% o nível não foi registrado.

Entre os 24.295 relatórios com lesão do policial, 82% foram classificados como lesões menores, 2% como graves e 16% não possuíam nível de lesão registrado.

Registrar a existência da lesão é apenas o primeiro nível de informação.

QUALIDADE DO DADO 

Até a definição da pergunta pode alterar o que aparece na estatística.

Na publicação referente a abril de 2024 a março de 2025, o Home Office modificou a pergunta utilizada para registrar lesões da pessoa.

O novo registro passou a permitir distinguir se a lesão aconteceu durante o uso da força, se ocorreu separadamente do uso da força ou se essa relação não foi registrada.

O próprio Home Office apresenta esses dados como estatísticas oficiais em desenvolvimento e alerta para a mudança metodológica.

Essa diferença é relevante porque demonstra um problema básico da pesquisa sobre ocorrências policiais:

Antes de comparar números, precisamos saber exatamente o que foi perguntado, definido e registrado.

NATIONAL INSTITUTE OF JUSTICE 

Resistência e controle físico aparecem associados ao risco de lesão.

Uma avaliação multiagência financiada pelo National Institute of Justice — NIJ examinou fatores relacionados às lesões de policiais e cidadãos em ocorrências envolvendo uso da força.

Os pesquisadores encontraram associação entre níveis crescentes de resistência e aumento do risco de lesões para policiais e pessoas submetidas à intervenção.

O uso de força física e de controle hands-on também apareceu associado a maior risco de lesões.

O aumento do risco associado à resistência foi particularmente relevante para os policiais.

Esses resultados ajudam a demonstrar por que “houve uso da força” é uma categoria ampla demais para explicar sozinha uma lesão.

Resistência, força aplicada e lesão aparecem relacionadas. Isso não significa que uma única variável explique isoladamente o resultado.

1.174 OCORRÊNCIAS 

A resistência física volta a aparecer.

Outro estudo analisou 1.174 ocorrências de uso da força para identificar fatores potencialmente associados a lesões da pessoa e dos policiais envolvidos.

A resistência física da pessoa apareceu entre os fatores com maior associação independente tanto com lesões da própria pessoa quanto com lesões dos policiais.

No modelo apresentado pelos pesquisadores, a resistência física esteve associada a maior chance de lesão da pessoa e também a maior chance de lesão do policial.

Isso não transforma resistência em explicação automática para toda lesão. O estudo identifica associações dentro de uma população, sistema e período específicos.

A pergunta relevante não é apenas se houve resistência. É como a resistência evoluiu dentro da ocorrência.

UMA VARIÁVEL, VÁRIOS PROBLEMAS 

“Lesão” não é uma categoria simples.

Para interpretar uma lesão é necessário separar dimensões diferentes.

Quem foi lesionado, qual foi a gravidade e em que momento da ocorrência o ferimento apareceu são perguntas distintas.

01

Quem?

Pessoa abordada, policial ou mais de um participante podem sofrer lesões na mesma ocorrência.

02

Quando?

Antes do contato físico, durante resistência, na queda, no solo, durante contenção ou em outro momento.

03

Gravidade

Escoriações e pequenas contusões não podem ser tratadas analiticamente como fraturas, lacerações profundas ou internação hospitalar.

04

Mecanismo

Impacto contra o solo, golpe, queda, contato corporal, equipamento ou mecanismo indeterminado.

05

Visibilidade

A existência de uma gravação não significa que o momento da lesão esteja visível ou possa ser determinado com segurança.

06

Fonte

Registro policial, atendimento médico, relato posterior e vídeo podem responder perguntas diferentes sobre o mesmo evento.

ASSOCIAÇÃO ≠ CAUSA 

Uma ocorrência complexa produz variáveis que acontecem juntas.

Esse é um dos principais problemas metodológicos ao estudar lesões em ocorrências policiais.

Ocorrências com resistência mais intensa podem durar mais tempo, envolver mais policiais, mais tentativas de controle, contato com o solo e maior uso de força.

Se uma lesão aparece com maior frequência nessas ocorrências, isso não permite concluir automaticamente que uma única técnica, posição ou quantidade de policiais causou o resultado.

As próprias características que tornam a ocorrência mais difícil também podem aumentar simultaneamente a probabilidade de diferentes intervenções e de lesões.

Encontrar uma associação é o começo da análise. Não é o fim.

OCORRÊNCIAS REAIS 

O que uma análise precisa conseguir distinguir?

O estudo de uma ocorrência precisa ir além da variável binária “houve ou não houve lesão”.

01

Quem sofreu a lesão?

02

A lesão era visível antes do contato físico?

03

O momento provável da lesão pode ser identificado?

04

A lesão ocorreu durante resistência, queda, contenção ou outro momento?

05

A pessoa continuou resistindo depois do momento observado?

06

Houve participação física de mais de um policial?

07

A ocorrência já estava no solo?

08

A lesão ocorreu antes, durante ou depois do algemamento?

09

A gravidade pode ser determinada pela evidência disponível?

10

Quando a evidência não permite determinar o mecanismo, isso está sendo explicitamente registrado como indeterminado?

COMBATIVES RESEARCH · CS-001 

O resultado precisa permanecer ligado à sequência.

 

CS-001 — COMBATIVES Physical Control Study

Estudo Observacional da Dinâmica da Resistência e Controle Físico em Ocorrências Policiais

No CS-001, a presença de lesão interessa como um dos possíveis desfechos da ocorrência, mas sua interpretação depende do contexto observável.

O estudo busca preservar a relação entre resistência, evolução do contato físico, contenção, algemamento, custódia e desfechos sem transformar associações observacionais em conclusões causais.

Quando a evidência disponível não permitir determinar com segurança o momento ou o mecanismo de uma lesão, essa incerteza não deve ser preenchida por inferência.

LESÃO OBSERVADA ≠ MECANISMO DETERMINADO ≠ CAUSA DEMONSTRADA

PRÓXIMO ARTIGO 

Treinar uma habilidade não significa mantê-la disponível.

Técnicas de controle físico dependem de aprendizagem, repetição e capacidade de execução.

Mas existe uma variável frequentemente esquecida: o tempo entre o treinamento e o momento em que aquela habilidade precisa ser utilizada.

O próximo artigo examina treinamento, prática, deterioração de habilidades e retenção de desempenho.

Aprender é uma etapa. Reter é outra.

FONTES & REFERÊNCIAS 

Lesões precisam ser interpretadas dentro do contexto em que foram registradas.

Home Office · England and Wales

Police use of force statistics, England and Wales: April 2023 to March 2024. Estatísticas oficiais sobre táticas, contexto, resultados e lesões em registros de uso da força.

Home Office · England and Wales

Police use of force statistics, England and Wales: April 2024 to March 2025. Publicação oficial com alteração metodológica no registro de lesões da pessoa e distinção sobre a relação da lesão com o uso da força.

Home Office · User Guide to Police Use of Force Statistics

Guia metodológico para interpretação das categorias, definições, limitações e procedimentos de registro utilizados nas estatísticas nacionais.

Smith, Michael R.; Kaminski, Robert J.; Alpert, Geoffrey P.; Fridell, Lorie A.; MacDonald, John; Kubu, Bruce 

Multi-Method Evaluation of Police Use of Force Outcomes. National Institute of Justice, 2009.

Alpert, Geoffrey P.; Smith, Michael R.; Kaminski, Robert J.; Fridell, Lorie A.; MacDonald, John; Kubu, Bruce 

Police Use of Force, Tasers and Other Less-Lethal Weapons. National Institute of Justice, 2011.

MacDonald, John M.; Kaminski, Robert J.; Smith, Michael R. 

Effect of Less-Lethal Weapons on Injuries in Police Use-of-Force Events. American Journal of Public Health, 2009.

Estudos observacionais permitem identificar associações, mas não demonstram isoladamente que resistência, determinada técnica, posição corporal, número de policiais ou outra variável seja a causa de uma lesão. Ocorrências de maior complexidade podem produzir simultaneamente maior resistência, maior intervenção física e maior risco de lesão.

As estatísticas citadas pertencem a jurisdições, períodos, definições e sistemas de registro específicos e não devem ser transferidas automaticamente para a realidade brasileira. Alterações na definição ou no procedimento de coleta também podem afetar comparações entre períodos.

As referências externas são utilizadas para revisão da literatura e desenvolvimento conceitual do CS-001. Não constituem dados ou resultados originais do estudo. A citação de pesquisadores, instituições e corporações possui finalidade exclusivamente documental e de pesquisa e não implica vínculo, certificação, apoio, patrocínio ou endosso institucional ao COMBATIVES™.

COMBATIVES RESEARCH · CS-001 · ARTIGO 06 

A lesão aparece no final do registro. A explicação pode estar muito antes.

Ocorrências físicas são sequências, não fotografias.

Resistência, queda, solo, controle, participação de outros policiais e algemamento podem acontecer em poucos segundos e produzir resultados diferentes.

Se o objetivo é compreender esses resultados, registrar apenas que alguém terminou lesionado é pouco.

Quem se lesionou.
Quando aconteceu.
O que pode ser observado.
O que permanece indeterminado.