ARTIGO 05 · MÚLTIPLOS POLICIAIS
Um policial. Dois. Três ou mais.
Quando outros policiais entram em uma contenção, a configuração física da ocorrência muda.
Aparecem mais mãos, mais pontos de contato e mais possibilidades de controlar braços, pernas e tronco. Ao mesmo tempo, surgem novas exigências de espaço, comunicação e coordenação.
Por isso, simplesmente registrar quantos policiais estavam presentes diz pouco sobre aquilo que aconteceu durante o controle.
Uma pergunta mais útil é: quantos policiais participaram fisicamente, em qual momento entraram e o que estava acontecendo naquele instante?
Estar presente não significa participar do controle. Participar do controle não significa estar coordenado.
NÚMERO DE POLICIAIS
O número muda. A configuração também.
Uma interação que começa entre um policial e uma pessoa pode mudar rapidamente quando outros policiais chegam.
Um segundo policial pode assumir um braço, controlar outra parte do corpo, auxiliar na estabilização ou realizar o algemamento.
Com três ou mais policiais, novas possibilidades aparecem. Mas várias pessoas também passam a atuar sobre o mesmo corpo, muitas vezes em espaço limitado e durante poucos segundos.
Isso significa que o número de policiais não deve ser tratado apenas como uma contagem.
TRÊS MEDIDAS DIFERENTES
Quantos estavam realmente envolvidos?
Em uma análise de ocorrências reais, pelo menos três números precisam ser considerados separadamente.
01
Policiais presentes
Quantos policiais estavam no local durante a ocorrência, independentemente de terem realizado contato físico.
02
Policiais em contato
Quantos efetivamente tocaram, seguraram, conduziram ou utilizaram força sobre a pessoa.
03
Policiais no controle
Quantos estavam simultaneamente envolvidos na contenção física em determinado momento.
26 AGÊNCIAS · ESTADOS UNIDOS
Quando o banco registra quantos policiais usaram força.
Um estudo de Kevin Petersen, Christopher S. Koper, Bruce G. Taylor, Weiwei Liu e Jackie Sheridan-Johnson reuniu dados registrados entre 2015 e 2019 por 26 agências policiais de 14 estados norte-americanos.
O conjunto completo continha 3.707 ocorrências envolvendo armas menos letais.
A análise principal utilizou 2.348 ocorrências de 17 agências que possuíam informação suficiente para as variáveis examinadas.
Uma dessas variáveis identificava se dois ou mais policiais utilizaram força na mesma ocorrência.
01 26 agências
de 14 estados forneceram dados para o conjunto geral da pesquisa.
02 2.348 casos
de 17 agências formaram a amostra analítica principal.
03 37%
foi a proporção ponderada de ocorrências com dois ou mais policiais utilizando força.
Existe uma limitação importante: esse estudo não representa todas as ocorrências policiais. A amostra foi construída a partir de ocorrências envolvendo armas menos letais.
Mesmo assim, o banco demonstra algo metodologicamente importante para o CS-001: o número de policiais que efetivamente utilizam força pode ser registrado separadamente e analisado como uma variável da ocorrência.
CAUSA OU CONSEQUÊNCIA?
Por que havia mais policiais?
Existe uma dificuldade importante quando tentamos relacionar número de policiais com duração da resistência, intensidade da intervenção ou lesões.
Ocorrências mais complexas podem naturalmente provocar a participação de mais policiais.
Uma resistência pode começar com um policial e receber reforço durante sua evolução. Uma ocorrência planejada pode possuir vários policiais presentes antes de qualquer resistência.
Por isso, encontrar mais policiais em ocorrências com maior uso da força não permite concluir, sozinho, que o número de policiais produziu aquela intensidade.
RESISTÊNCIA & LESÕES
Antes do número de policiais, existe o comportamento da ocorrência.
Edward R. Maguire e Eugene A. Paoline III analisaram 2.265 ocorrências de uso da força registradas pelo Tucson Police Department, no Arizona, entre janeiro de 2018 e junho de 2020.
Houve registro de lesão policial em 253 ocorrências — aproximadamente 11% da amostra.
Em 25% das ocorrências, a pessoa apresentou resistência defensiva à prisão ou tentativa de fuga. Em 10%, houve agressão contra policial ou outra pessoa.
Na análise multivariada, resistência defensiva ou tentativa de fuga esteve associada a maior risco de lesão policial. A agressão contra policiais ou terceiros também apresentou associação significativa com esse risco.
Táticas físicas classificadas no banco como hands-on também apareceram associadas a maior risco de lesão policial.
COORDENAÇÃO
Mais participantes criam novas variáveis.
Quando vários policiais entram em contato físico simultaneamente, não estamos apenas adicionando força.
A própria estrutura da interação muda.
01
Divisão do controle
Diferentes policiais podem assumir braços, pernas, tronco ou outras funções durante a contenção.
02
Comunicação
Os envolvidos precisam reconhecer o que os outros policiais estão fazendo e ajustar suas próprias ações.
03
Espaço
Corredores, veículos, quartos, calçadas e outros ambientes podem limitar quantos policiais conseguem atuar simultaneamente.
04
Interferência
Um policial pode limitar involuntariamente o movimento ou o acesso de outro durante uma contenção.
05
Transição
A participação pode mudar quando a ocorrência passa da resistência em pé para queda, solo, algemamento e custódia.
06
Participação
Nem todos os policiais presentes desempenham a mesma função ou realizam o mesmo nível de contato físico.
UM PROBLEMA DE DADOS
Uma ocorrência pode gerar vários registros.
A própria estrutura de um sistema de registro pode alterar a maneira como seus números precisam ser interpretados.
Nas estatísticas oficiais da Inglaterra e do País de Gales, por exemplo, cada relatório representa o uso da força de um policial sobre uma pessoa.
Se dois policiais utilizam força sobre a mesma pessoa, podem ser produzidos dois relatórios, embora exista apenas uma pessoa envolvida naquela ocorrência.
Pesquisas sobre dinâmica física precisam, portanto, distinguir pelo menos registro, policial, pessoa e ocorrência.
OCORRÊNCIAS REAIS
O que deveríamos medir?
Para estudar a participação de vários policiais durante uma contenção, a simples contagem final não é suficiente.
01
Quantos policiais estavam presentes no início da ocorrência?
02
Quantos realizaram contato físico?
03
Quantos estavam simultaneamente envolvidos na contenção?
04
Em qual momento o segundo policial entrou no controle?
05
Em qual momento entraram o terceiro e os demais policiais?
06
Qual era o comportamento observado imediatamente antes da entrada de cada novo policial no controle?
07
Houve divisão identificável de funções durante o controle?
08
Algum policial deixou de participar antes do estabelecimento da custódia?
09
Quanto tempo passou entre o início da resistência e o estabelecimento do controle?
10
Em qual momento ocorreu eventual lesão do policial ou da pessoa contida?
PERGUNTA DE PESQUISA
Um contra um. Dois contra um. Três ou mais contra um.
Separar essas configurações permite observar ocorrências que poderiam aparecer reunidas sob a mesma categoria genérica de contenção.
Entre as variáveis possíveis estão duração da resistência, tempo até o controle, ida ao solo, tentativas de fuga, perda e recuperação do controle, algemamento e lesões.
Mas essas configurações não podem ser comparadas isoladamente.
Nível de resistência, comportamento da pessoa, presença de arma, ambiente, tipo de ocorrência e momento de entrada de cada policial também podem estar relacionados ao resultado.
COMBATIVES RESEARCH · CS-001
Presença, participação e sequência serão variáveis diferentes.
CS-001 — COMBATIVES Physical Control Study
Estudo Observacional da Dinâmica da Resistência e Controle Físico em Ocorrências Policiais
No CS-001, a ocorrência será tratada como unidade principal de análise, independentemente do número de policiais ou do número de gravações disponíveis.
O número de policiais presentes será separado do número de policiais que efetivamente participaram do contato físico.
Quando a evidência disponível permitir, também poderá ser registrada a entrada e a saída de participantes ao longo da sequência.
Essa distinção permite estudar não apenas quantas pessoas estavam no local, mas como a configuração física da ocorrência mudou entre resistência e custódia.
Os estudos apresentados neste artigo constituem referências para o desenvolvimento metodológico do CS-001 e não representam resultados originais do projeto.
FONTES & REFERÊNCIAS
Número de policiais é apenas uma das variáveis.
As pesquisas abaixo sustentam os exemplos apresentados neste artigo. Seus resultados devem ser interpretados de acordo com a população, desenho, variáveis e limitações de cada estudo.
Petersen, Kevin; Koper, Christopher S.; Taylor, Bruce G.; Liu, Weiwei; Sheridan-Johnson, Jackie
Less-Lethal Weapons and Civilian Injury in Police Use of Force Encounters: A Multi-agency Analysis. Journal of Urban Health, 102, 389–399, 2025. Estudo multiagência com dados de 26 agências policiais de 14 estados norte-americanos. DOI: 10.1007/s11524-024-00940-1.
Maguire, Edward R.; Paoline III, Eugene A.
Non-fatal injuries among police officers during use-of-force encounters. Occupational Medicine, Volume 73, Issue 8, 2023, pp. 479–483. Análise de 2.265 ocorrências de uso da força registradas pelo Tucson Police Department. DOI: 10.1093/occmed/kqad101.
Home Office · England and Wales
Police use of force statistics, England and Wales: April 2024 to March 2025 — Second Edition. Estatísticas oficiais atualizadas em 4 de junho de 2026. O sistema define cada relatório como o uso da força de um policial sobre uma pessoa e permite que uma mesma ocorrência produza vários relatórios.
Estudos observacionais permitem identificar associações, mas não demonstram isoladamente que o número de policiais causa determinado resultado. Ocorrências mais complexas também podem provocar a participação de mais policiais, criando um problema de seleção que precisa ser considerado na análise. A citação de pesquisadores, instituições e corporações possui finalidade exclusivamente documental e de pesquisa e não implica vínculo, certificação, apoio, patrocínio ou endosso institucional ao COMBATIVES™.
COMBATIVES RESEARCH · CS-001 · ARTIGO 05
Contar policiais é fácil. Entender a participação é outra coisa.
Uma ocorrência pode começar com um policial, receber reforço durante a resistência e terminar com vários profissionais envolvidos no controle.
Para compreender essa dinâmica, precisamos saber quando cada policial entrou, o que estava acontecendo naquele momento e como a situação mudou.
A presença é apenas o primeiro número. A participação precisa ser observada ao longo do tempo.
Quantos participaram?
Quando entraram?
O que mudou?