O que sabemos — e como sabemos
O CS-001 compara registros nacionais, ocorrências reais, entrevistas, observação direta, simulações controladas, biomecânica, treinamento e lesões para entender o que acontece entre resistência, controle físico e custódia.
Número sem método pode enganar.
Um dado obtido em uma base nacional não significa a mesma coisa que um resultado experimental. Uma simulação não é uma ocorrência real. Uma entrevista não é uma medição biomecânica. Por isso, cada resultado abaixo é acompanhado de sua origem, método, leitura possível e limite de interpretação.
Tipos de evidência utilizados
Escala da evidência comparada
Uma das bases mais detalhadas sobre uso da força
Os números abaixo vêm do sistema oficial do Home Office para o período de abril de 2024 a março de 2025.
Como o sistema registra uma ocorrência?
Cada relatório representa o uso da força de um policial sobre uma pessoa.
Um único relatório pode conter várias táticas. Portanto, o número de táticas é maior que o número de relatórios.
Se dois policiais usam força sobre a mesma pessoa, são produzidos dois relatórios separados, embora exista apenas uma pessoa envolvida.
O sistema diferencia algemamento cooperativo, algemamento não cooperativo, contenção de membros, contenção no solo, habilidades desarmadas, spray, bastão, CED/Taser, arma de fogo e outras táticas.
O que esses números significam em proporção?
As táticas de contenção representaram aproximadamente 63% de todas as táticas.
Cerca de 80% das táticas de contenção envolveram algemamento.
O algemamento, sozinho, representou aproximadamente metade de todas as táticas de uso da força registradas.
Entre os algemamentos, 33% foram classificados como não cooperativos.
Isso não aconteceu apenas em um ano.
A série histórica mostra que o algemamento não cooperativo e a contenção no solo permanecem elevados ao longo do tempo.
Onde isso acontece?
A base também registra o ambiente da ocorrência. Rua e rodovia formam uma das categorias mais importantes.
O que torna a ocorrência mais difícil?
O Home Office registra fatores de impacto percebidos ou informados durante a ocorrência.
Importante: não confundir associação com causa.
Esses fatores podem coexistir dentro do mesmo relatório. Portanto, não se pode somar as categorias nem concluir que álcool, drogas ou saúde mental "causaram" determinada técnica.
O dado mostra apenas que esses fatores aparecem frequentemente no contexto das ocorrências.
Por que o policial usou força?
Como interpretar?
Um relatório pode registrar mais de uma razão. Portanto, essas categorias também não são mutuamente exclusivas.
O dado mostra que controle físico, proteção do operador e efetivação da prisão aparecem fortemente conectados.
Como termina a ocorrência?
O que essa base mostra muito bem
Frequência, contexto, local, motivo, tipo de tática e desfecho em enorme escala.
O que ainda não mostra
Qual braço foi perdido, como o suspeito protegeu as mãos, em que momento o controle quebrou e como dois ou três operadores dividiram tarefas.
Quando a pesquisa começa a observar movimento
Diferentemente da base britânica, aqui pesquisadores colocaram policiais diante de uma tarefa física padronizada.
Fase 1 — Como foi feita a simulação?
Participaram 91 policiais, sendo 74 homens e 17 mulheres.
Eles enfrentaram uma apreensão simulada envolvendo um suspeito não cooperativo.
Os vídeos foram analisados posteriormente para identificar frequência e duração de movimentos de grappling, golpes, controles e mudanças de postura corporal.
Fase 2 — Como foram obtidos os números de força?
Essa etapa foi um teste biomecânico separado, com 55 policiais homens.
O protocolo
O participante ficava em pé em uma base escalonada.
Utilizava um arnês de segurança e uma cinta conectada a um medidor digital de força.
Uma força lateral era aplicada aproximadamente a 90 graus em diferentes regiões corporais.
A força aumentava até o participante precisar dar um passo para recuperar o equilíbrio.
Esse momento era registrado como o ponto de perda da base.
Esses valores são médias daquele protocolo experimental. Não significam que 30 kg sejam suficientes para derrubar qualquer pessoa em uma ocorrência real. O resultado importante é comparativo: o ponto de aplicação da força modificou substancialmente a força necessária para romper a base.
Quase 25 mil ocorrências e múltiplos métodos
O projeto norte-americano combinou bases administrativas, análises locais, entrevistas e estudos longitudinais.
Como foi feito?
A base multiagência reuniu 24.928 ocorrências de uso da força provenientes de 12 agências policiais.
Os pesquisadores também analisaram departamentos individualmente, políticas institucionais, lesões e entrevistas qualitativas.
Mais de 250 policiais foram entrevistados sobre ocorrências reais de uso da força.
Resultado importante
Quanto maior a resistência do suspeito, maior tende a ser o risco de lesão tanto para policial quanto para suspeito.
Limitação
O estudo não detalha sistematicamente cada posição corporal e cada transição entre resistência e algemamento.
O treinamento pode alterar o resultado ao longo dos anos
Esse estudo acompanhou policiais durante 14 anos e comparou períodos com modelos diferentes de treinamento.
Como foi feito?
Foram analisados 162 policiais e comandantes.
O período foi dividido em:
2003–2006: treinamento tradicional.
2007–2013: procedimentos táticos específicos para prisões problemáticas.
2014–2016: interrupção desse treinamento específico.
O que apareceu
O período de treinamento tático específico esteve associado a redução de afastamentos por lesão.
O que ainda falta
O estudo não mostra exatamente qual controle corporal foi determinante em cada ocorrência.
O próprio treinamento também precisa ser estudado
Uma técnica pode funcionar e ainda assim ser ruim como solução de treinamento se produzir excesso de lesões durante a própria formação.
Como foi feito?
Foram analisados 22 meses de registros do Police College.
Os pesquisadores classificaram região corporal, tipo de lesão, mecanismo e atividade realizada.
O país está estruturando diagnóstico, protocolo e treinamento
No Brasil, a informação pública localizada ainda está mais concentrada em regulação, formação, doutrina e políticas nacionais.
O que existe oficialmente?
O Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força, coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, prevê:
diagnóstico institucional;
diretrizes nacionais;
certificação de equipamentos;
capacitação continuada;
aquisições e doações;
avaliação de impacto.
O avanço
O uso da força está sendo tratado como tema que exige padronização, treinamento e avaliação.
A lacuna
Nesta revisão ainda não foi identificada uma base pública brasileira equivalente para descrever em detalhe a microdinâmica física entre resistência e custódia.
O problema começa onde a estatística termina.
Sabemos quantas vezes ocorre algemamento. Sabemos quantas vezes existe resistência. Sabemos que milhares de ocorrências terminam no solo. Sabemos que resistência aumenta risco de lesão. Sabemos que grappling e controle corporal aparecem repetidamente. Mas ainda sabemos pouco sobre qual braço se perde, onde o controle falha, como dois operadores se coordenam e quais soluções permanecem funcionais sob resistência real.
Perguntas que o CS-001 pretende aprofundar
Referências principais
Home Office — England and Wales. Police use of force statistics, April 2024 to March 2025, second edition.
Fonte oficial
Poirier MP et al. · Canadá. Technical-tactical behavior analysis of general duty police officers during non-compliant suspect apprehensions.
Artigo completo
National Institute of Justice · Estados Unidos. Multi-Method Evaluation of Police Use of Force Outcomes.
OJP / NIJ
Polícia Municipal de Cádiz · Espanha. Evaluation of police operational tactical procedures for reducing officer injuries resulting from physical interventions.
PubMed
New Zealand Police College. Profiling the Injuries Sustained by Police Trainees Undergoing Initial Training.
Artigo completo
Brasil · Ministério da Justiça e Segurança Pública. Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força.
Fonte oficial