CS-001 PAPER 03 — Da Resistência à Custódia: Evidência Operacional Internacional e a Lacuna Brasileira no Estudo do Controle Físico Policial.

Por IRC Braddock, 10 Outubro, 2026
CS-001 · COMBATIVES PHYSICAL CONTROL STUDY

O que sabemos — e como sabemos

O CS-001 compara registros nacionais, ocorrências reais, entrevistas, observação direta, simulações controladas, biomecânica, treinamento e lesões para entender o que acontece entre resistência, controle físico e custódia.

Número sem método pode enganar.

Um dado obtido em uma base nacional não significa a mesma coisa que um resultado experimental. Uma simulação não é uma ocorrência real. Uma entrevista não é uma medição biomecânica. Por isso, cada resultado abaixo é acompanhado de sua origem, método, leitura possível e limite de interpretação.

Tipos de evidência utilizados

BASE ADMINISTRATIVA Registros produzidos rotineiramente por instituições policiais em grande escala. 
OCORRÊNCIA REAL Relatórios, entrevistas ou observações de encontros efetivamente ocorridos. 
SIMULAÇÃO CONTROLADA Policiais executam tarefas padronizadas diante de resistência prevista pelo estudo. 
TESTE BIOMECÂNICO Força, postura ou movimento são medidos instrumentalmente em condições controladas. 

Escala da evidência comparada

1,146 milhão táticas registradas em Inglaterra e País de Gales
24.928 ocorrências reunidas em 12 agências dos EUA
91 policiais em simulação técnico-tática no Canadá
55 policiais em teste biomecânico separado no Canadá
14 anos de acompanhamento na Polícia Municipal de Cádiz
564 lesões registradas durante formação policial na Nova Zelândia
INGLATERRA E PAÍS DE GALES · BASE NACIONAL

Uma das bases mais detalhadas sobre uso da força

Os números abaixo vêm do sistema oficial do Home Office para o período de abril de 2024 a março de 2025.

Como o sistema registra uma ocorrência?

Cada relatório representa o uso da força de um policial sobre uma pessoa.

Um único relatório pode conter várias táticas. Portanto, o número de táticas é maior que o número de relatórios.

Se dois policiais usam força sobre a mesma pessoa, são produzidos dois relatórios separados, embora exista apenas uma pessoa envolvida.

O sistema diferencia algemamento cooperativo, algemamento não cooperativo, contenção de membros, contenção no solo, habilidades desarmadas, spray, bastão, CED/Taser, arma de fogo e outras táticas.

812.447 relatórios de uso da força
1.146.016 táticas registradas
719.502 táticas de contenção
574.984 algemamentos registrados
188.375 algemamentos não cooperativos
96.580 contenções no solo

O que esses números significam em proporção?

As táticas de contenção representaram aproximadamente 63% de todas as táticas.

Cerca de 80% das táticas de contenção envolveram algemamento.

O algemamento, sozinho, representou aproximadamente metade de todas as táticas de uso da força registradas.

Entre os algemamentos, 33% foram classificados como não cooperativos.

Isso não aconteceu apenas em um ano.

A série histórica mostra que o algemamento não cooperativo e a contenção no solo permanecem elevados ao longo do tempo.

136.750 algemamentos não cooperativos · 2020/21
154.459 algemamentos não cooperativos · 2021/22
157.883 algemamentos não cooperativos · 2022/23
178.036 algemamentos não cooperativos · 2023/24
188.375 algemamentos não cooperativos · 2024/25
+37,8% aumento nominal entre 2020/21 e 2024/25

Onde isso acontece?

A base também registra o ambiente da ocorrência. Rua e rodovia formam uma das categorias mais importantes.

386.866 relatórios em rua ou rodovia
292.195 algemamentos em rua ou rodovia
91.637 algemamentos não cooperativos nesses locais
41.968 contenções no solo em rua ou rodovia
125.983 usos de habilidades desarmadas
548.410 táticas totais registradas nesses ambientes

O que torna a ocorrência mais difícil?

O Home Office registra fatores de impacto percebidos ou informados durante a ocorrência.

296.683 relatórios envolvendo álcool
250.226 relatórios envolvendo drogas
207.256 relatórios envolvendo condição de saúde mental
88.787 algemamentos não cooperativos associados a álcool
64.960 algemamentos não cooperativos associados a drogas
66.036 algemamentos não cooperativos associados a saúde mental
50.342 contenções no solo associadas a álcool
39.068 contenções no solo associadas a drogas
37.407 contenções no solo associadas a saúde mental

Importante: não confundir associação com causa.

Esses fatores podem coexistir dentro do mesmo relatório. Portanto, não se pode somar as categorias nem concluir que álcool, drogas ou saúde mental "causaram" determinada técnica.

O dado mostra apenas que esses fatores aparecem frequentemente no contexto das ocorrências.

Por que o policial usou força?

497.081 para proteger o próprio policial contra violência
440.467 para efetuar uma prisão
424.060 para proteger outros policiais contra violência

Como interpretar?

Um relatório pode registrar mais de uma razão. Portanto, essas categorias também não são mutuamente exclusivas.

O dado mostra que controle físico, proteção do operador e efetivação da prisão aparecem fortemente conectados.

Como termina a ocorrência?

570.237 relatórios terminaram em prisão
437.279 algemamentos entre ocorrências que terminaram em prisão
136.502 algemamentos não cooperativos nesses casos
69.343 contenções no solo em ocorrências que terminaram em prisão
177.639 usos de habilidades desarmadas
28.960 relatórios com hospitalização como desfecho

O que essa base mostra muito bem

Frequência, contexto, local, motivo, tipo de tática e desfecho em enorme escala.

O que ainda não mostra

Qual braço foi perdido, como o suspeito protegeu as mãos, em que momento o controle quebrou e como dois ou três operadores dividiram tarefas.

CANADÁ · SIMULAÇÃO + BIOMECÂNICA

Quando a pesquisa começa a observar movimento

Diferentemente da base britânica, aqui pesquisadores colocaram policiais diante de uma tarefa física padronizada.

Fase 1 — Como foi feita a simulação?

Participaram 91 policiais, sendo 74 homens e 17 mulheres.

Eles enfrentaram uma apreensão simulada envolvendo um suspeito não cooperativo.

Os vídeos foram analisados posteriormente para identificar frequência e duração de movimentos de grappling, golpes, controles e mudanças de postura corporal.

100% usaram movimentos de grappling
75% usaram técnicas de controle
4% usaram golpes
7,3 s tempo médio da apreensão
97% iniciaram com tração utilizando as duas mãos
55% tentaram depois uma derrubada com controle do braço

Fase 2 — Como foram obtidos os números de força?

Essa etapa foi um teste biomecânico separado, com 55 policiais homens.

O protocolo

O participante ficava em pé em uma base escalonada.

Utilizava um arnês de segurança e uma cinta conectada a um medidor digital de força.

Uma força lateral era aplicada aproximadamente a 90 graus em diferentes regiões corporais.

A força aumentava até o participante precisar dar um passo para recuperar o equilíbrio.

Esse momento era registrado como o ponto de perda da base.

54 kg Punho
49 kg Antebraço
42 kg Ombro
44 kg Tórax
30 kg Costas

Esses valores são médias daquele protocolo experimental. Não significam que 30 kg sejam suficientes para derrubar qualquer pessoa em uma ocorrência real. O resultado importante é comparativo: o ponto de aplicação da força modificou substancialmente a força necessária para romper a base.

ESTADOS UNIDOS · MULTI-METHOD USE OF FORCE STUDY

Quase 25 mil ocorrências e múltiplos métodos

O projeto norte-americano combinou bases administrativas, análises locais, entrevistas e estudos longitudinais.

Como foi feito?

A base multiagência reuniu 24.928 ocorrências de uso da força provenientes de 12 agências policiais.

Os pesquisadores também analisaram departamentos individualmente, políticas institucionais, lesões e entrevistas qualitativas.

Mais de 250 policiais foram entrevistados sobre ocorrências reais de uso da força.

24.928 ocorrências analisadas
12 agências policiais
250+ policiais entrevistados

Resultado importante

Quanto maior a resistência do suspeito, maior tende a ser o risco de lesão tanto para policial quanto para suspeito.

Limitação

O estudo não detalha sistematicamente cada posição corporal e cada transição entre resistência e algemamento.

ESPANHA · POLÍCIA MUNICIPAL DE CÁDIZ

O treinamento pode alterar o resultado ao longo dos anos

Esse estudo acompanhou policiais durante 14 anos e comparou períodos com modelos diferentes de treinamento.

Como foi feito?

Foram analisados 162 policiais e comandantes.

O período foi dividido em:

2003–2006: treinamento tradicional.
2007–2013: procedimentos táticos específicos para prisões problemáticas.
2014–2016: interrupção desse treinamento específico.

14 anos de acompanhamento
162 policiais e comandantes
3 fases antes, durante e depois

O que apareceu

O período de treinamento tático específico esteve associado a redução de afastamentos por lesão.

O que ainda falta

O estudo não mostra exatamente qual controle corporal foi determinante em cada ocorrência.

NOVA ZELÂNDIA · POLICE COLLEGE

O próprio treinamento também precisa ser estudado

Uma técnica pode funcionar e ainda assim ser ruim como solução de treinamento se produzir excesso de lesões durante a própria formação.

Como foi feito?

Foram analisados 22 meses de registros do Police College.

Os pesquisadores classificaram região corporal, tipo de lesão, mecanismo e atividade realizada.

564 lesões registradas
50,9% entorses ou distensões
20% das lesões ocorreram no ombro
38,1% das lesões associadas especificamente ao treinamento policial
31% relacionadas a estresse muscular durante exercício
15,1% relacionadas a movimento forçado ou esforço repetitivo
BRASIL · QUALIFICAÇÃO DO USO DA FORÇA

O país está estruturando diagnóstico, protocolo e treinamento

No Brasil, a informação pública localizada ainda está mais concentrada em regulação, formação, doutrina e políticas nacionais.

O que existe oficialmente?

O Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força, coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, prevê:

diagnóstico institucional;
diretrizes nacionais;
certificação de equipamentos;
capacitação continuada;
aquisições e doações;
avaliação de impacto.

O avanço

O uso da força está sendo tratado como tema que exige padronização, treinamento e avaliação.

A lacuna

Nesta revisão ainda não foi identificada uma base pública brasileira equivalente para descrever em detalhe a microdinâmica física entre resistência e custódia.

CS-001 · RESEARCH GAP

O problema começa onde a estatística termina.

CONTATO RESISTÊNCIA DESEQUILÍBRIO SOLO CONTROLE MÃOS ALGEMA CUSTÓDIA

Sabemos quantas vezes ocorre algemamento. Sabemos quantas vezes existe resistência. Sabemos que milhares de ocorrências terminam no solo. Sabemos que resistência aumenta risco de lesão. Sabemos que grappling e controle corporal aparecem repetidamente. Mas ainda sabemos pouco sobre qual braço se perde, onde o controle falha, como dois operadores se coordenam e quais soluções permanecem funcionais sob resistência real.

Perguntas que o CS-001 pretende aprofundar

01
Qual é a forma mais frequente de resistência física durante uma tentativa de controle?
02
Em qual etapa o operador perde controle do braço ou da mão do resistente?
03
Qual membro apresenta maior dificuldade durante a transição para algemamento?
04
Quais movimentos normalmente antecedem a ida ao solo?
05
O que muda quando um segundo operador entra na contenção?
06
Como operadores experientes distribuem espontaneamente controle de tronco, quadril e membros?
07
Quais técnicas aprendidas permanecem disponíveis sob velocidade, fadiga e resistência?
08
Em qual momento da sequência surgem as lesões do policial e do resistente?

Referências principais

Home Office — England and Wales. Police use of force statistics, April 2024 to March 2025, second edition. 
Fonte oficial 

Poirier MP et al. · Canadá. Technical-tactical behavior analysis of general duty police officers during non-compliant suspect apprehensions. 
Artigo completo 

National Institute of Justice · Estados Unidos. Multi-Method Evaluation of Police Use of Force Outcomes. 
OJP / NIJ 

Polícia Municipal de Cádiz · Espanha. Evaluation of police operational tactical procedures for reducing officer injuries resulting from physical interventions. 
PubMed 

New Zealand Police College. Profiling the Injuries Sustained by Police Trainees Undergoing Initial Training. 
Artigo completo 

Brasil · Ministério da Justiça e Segurança Pública. Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força. 
Fonte oficial