Violência doméstica, cárcere e tomada de refém: o que os dados mostram

Violência doméstica Proteção Prevenção Threat Assessment 

COMBATIVES RESEARCH · VIOLENCE · PROTECTION

Situações em que um homem mantém a esposa, namorada ou ex-companheira contra a vontade dentro de uma residência ou outro local são estudadas há décadas dentro da violência por parceiro íntimo e da negociação policial de crises. Os dados mostram que muitas dessas ocorrências começam muito antes da chegada da polícia.

Brasil · Estados Unidos · Europa

Não é apenas uma situação com refém

Quando um homem armado mantém uma companheira ou ex-companheira dentro de casa, o caso pode ser chamado genericamente de situação com refém. Para análise técnica, porém, essa classificação pode ser insuficiente.

Em um sequestro clássico, a vítima costuma ser utilizada para obter dinheiro, fuga, transporte, libertação de terceiros ou alguma concessão. Em muitos episódios de violência doméstica, a própria vítima e a relação são o centro da ocorrência.

O agressor pode tentar impedir uma separação, recuperar controle sobre a mulher, puni-la, obrigá-la a permanecer no local ou reagir à percepção de abandono. A literatura internacional utiliza conceitos como hostage taking, captive taking e barricade with victim, dependendo das características do caso.

Um estudo de 2010 baseado em registros do Hostage Barricade Database System, HOBAS, utilizado pelo FBI, analisou especificamente incidentes de cativeiro associados à violência doméstica. Os pesquisadores encontraram predominância de ocorrências não planejadas, forte presença de residências particulares e históricos de violência e abuso de substâncias entre os agressores avaliados.

Filhos e outros familiares também podem acabar dentro da ocorrência. Isso muda a dinâmica operacional e aumenta o número de pessoas expostas.

O que 10.569 crises registradas no HOBAS mostram

Um estudo publicado em 2025 analisou 10.569 incidentes inseridos no HOBAS entre os primeiros anos da base e 23 de junho de 2023.

53,0% tiveram negociação e rendição registradas como forma de resolução 
84,7% terminaram sem nova violência depois do início da ocorrência 
96,9% terminaram sem ferimento de outras pessoas na variável analisada 
82,5% terminaram sem ferimento do próprio causador da crise 

Os números são importantes porque mostram que crises graves não terminam necessariamente com entrada tática e confronto armado. Comunicação, contenção, tempo e negociação profissional fazem parte da resolução de grande número das ocorrências registradas.

Os 53% não representam a taxa de sobrevivência de mulheres mantidas como reféns por companheiros. O HOBAS reúne diferentes tipos de crises e os resultados não podem ser transferidos automaticamente para um subconjunto específico.

Existe ainda uma limitação metodológica relevante. O HOBAS não é um censo obrigatório de todas as ocorrências norte-americanas. Os registros são fornecidos por agências participantes, o que pode produzir diferenças de seleção e representatividade.

A comunicação profissional interfere no resultado

A análise do HOBAS publicada em 2025 encontrou associação entre a comunicação iniciada por profissional treinado e maior probabilidade de resolução negociada.

Em sentido contrário, a presença de armas e a destruição de propriedade durante a crise apareceram associadas a menor probabilidade de encerramento exclusivamente por negociação.

Isso não significa que negociar seja sempre suficiente nem que exista uma fórmula universal. Significa que comunicação profissional faz parte de uma disciplina operacional baseada em experiência acumulada, dados e protocolos próprios.

O episódio crítico costuma ter uma história anterior

Para compreender uma ocorrência doméstica com cárcere ou refém, olhar apenas para as últimas horas pode ser um erro. Diversos estudos sobre homicídio por parceiro íntimo mostram que determinados comportamentos anteriores aparecem com frequência muito maior entre vítimas de violência letal.

Um dos trabalhos de referência foi publicado por Jacquelyn Campbell e colaboradores em 2003. A pesquisa utilizou dados de 11 cidades norte-americanas e comparou 220 mulheres assassinadas por parceiros íntimos com 343 mulheres que haviam sofrido violência, mas não haviam sido assassinadas.

Arma de fogo

O acesso do agressor a arma de fogo apresentou uma das associações mais fortes encontradas no estudo.

Em uma etapa da análise, o acesso à arma apresentou odds ratio ajustada de 7,59, com intervalo de confiança de 95% entre 3,85 e 14,99.

No modelo final, depois da inclusão de outras variáveis, a associação permaneceu elevada, com odds ratio ajustada de 5,44.

Odds ratio não é probabilidade absoluta. O número não significa que uma determinada mulher tenha exatamente 5,44 vezes mais chance de morrer. Ele mostra a força da associação encontrada dentro daquela população e daquele desenho de pesquisa.

Separação e controle

O estudo de Campbell também encontrou uma associação particularmente importante quando havia separação e comportamento altamente controlador.

Mulheres que haviam se separado de parceiros abusivos depois de terem vivido com eles apresentaram odds ratio ajustada de 3,64 em uma das análises.

Quando a separação aparecia combinada com um agressor classificado como altamente controlador, a associação chegou a odds ratio ajustada de 8,98.

Isso ajuda a explicar por que o período de ruptura de uma relação abusiva exige atenção. A saída da relação pode retirar do agressor justamente o controle que vinha exercendo sobre a vítima.

Ameaças anteriores também importam

Ameaça anterior utilizando arma apareceu com odds ratio ajustada de 4,08.

Ameaça anterior de matar a vítima apresentou odds ratio ajustada de 2,60.

Para avaliação de ameaça, a frase isolada não é suficiente. É necessário observar contexto, histórico, capacidade, acesso, escalada, oportunidade e comportamento anterior.

Estrangulamento não fatal

Outro estudo de referência analisou especificamente o histórico de estrangulamento praticado por parceiro íntimo.

Foram avaliados 506 casos de homicídio ou tentativa de homicídio e 427 mulheres vítimas de abuso utilizadas como grupo de comparação.

10% histórico de estrangulamento no grupo de mulheres abusadas usado para comparação 
45% histórico entre vítimas de tentativa de homicídio 
43% histórico entre vítimas de homicídio consumado 
7,48 odds ratio encontrada para homicídio consumado 

Para tentativa de homicídio, a odds ratio encontrada foi 6,70.

O dado tornou o estrangulamento não fatal um elemento relevante em instrumentos e protocolos de avaliação de risco de violência por parceiro íntimo.

Brasil: o que é possível medir

O Brasil não possui uma base pública nacional equivalente ao HOBAS que permita saber quantas crises domésticas com refém aconteceram, quantas foram negociadas, quantas exigiram intervenção tática e qual foi a taxa nacional de sobrevivência.

Por isso, não é correto apresentar uma suposta taxa brasileira de sucesso em negociação de reféns domésticos.

Existem, porém, bases nacionais relevantes sobre violência contra a mulher, cárcere privado, feminicídio e relação entre vítima e agressor.

Ligue 180: 2.621 registros de sequestro ou cárcere privado

Em 2025, o Ligue 180, do Ministério das Mulheres, realizou 1.088.900 atendimentos, aproximadamente 3 mil por dia.

Foram registradas 155.111 denúncias, contendo 679.058 violações.

Entre essas violações apareceram 2.621 registros classificados como sequestro ou cárcere privado.

Esses 2.621 registros não equivalem a 2.621 operações policiais com reféns. A categoria jurídica e administrativa inclui situações diferentes. Ainda assim, mostra que impedir uma mulher de sair de determinado ambiente aparece de forma concreta dentro do sistema nacional de denúncias.

A residência continua sendo um ponto crítico

Entre as denúncias registradas pelo Ligue 180 em 2025, quase 70% indicavam ambiente doméstico como local da violência.

40,76% residência da própria vítima 
28,58% residência compartilhada com o suspeito 
31,8% vítimas relataram agressões diárias 

A casa reúne características particulares. O agressor conhece o espaço, rotinas, entradas e saídas. Crianças podem estar presentes. Telefones, veículos, documentos e meios de fuga podem ser controlados. Em situações de escalada, o ambiente doméstico pode se transformar rapidamente em espaço de confinamento.

Feminicídio no Brasil

Dados referentes aos feminicídios de 2024 publicados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 ajudam a dimensionar quem pratica a violência letal e onde ela acontece.

64,3% das vítimas foram mortas dentro de casa 
79,8% foram mortas por companheiro ou ex-companheiro 
48,4% crimes praticados com arma branca 
23,6% crimes praticados com arma de fogo 

Esses números são estatísticas de feminicídio, não estatísticas de situações com refém. A distinção é necessária. Eles mostram, contudo, a importância da residência e da relação íntima dentro da violência letal contra mulheres.

Caso Eloá Pimentel

Santo André · São Paulo · Brasil

Eloá Pimentel

13 a 17 de outubro de 2008

Eloá Cristina Pimentel tinha 15 anos. Lindemberg Alves Fernandes, de 22 anos, era seu ex-namorado.

Em 13 de outubro de 2008, Lindemberg entrou armado no apartamento em Santo André onde Eloá estudava com três amigos.

Dois rapazes foram libertados. Nayara Rodrigues permaneceu inicialmente no imóvel, saiu e posteriormente retornou durante a ocorrência.

A crise se prolongou por aproximadamente 100 horas.

Em 17 de outubro ocorreu a entrada policial. Eloá foi atingida por disparos e posteriormente teve morte cerebral confirmada. Nayara também foi baleada e sobreviveu.

O caso permanece importante para estudo porque reúne ex-parceiro, término da relação, controle da vítima, ambiente residencial, presença de arma, longa duração e negociação policial.

Estados Unidos: Bryant Phillips

Washington, D.C. · Estados Unidos

Bryant Phillips

5 a 8 de junho de 2022

Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Bryant Phillips manteve sua parceira íntima contra a vontade em um apartamento durante aproximadamente três dias.

A vítima sofreu repetidas agressões físicas e sexuais e apresentou ferimentos extensos.

Phillips foi posteriormente julgado e, em 9 de agosto de 2024, recebeu prisão perpétua sem possibilidade de libertação, além de pena adicional de 30 anos.

O caso mostra uma diferença importante. Uma situação de cativeiro doméstico pode existir durante horas ou dias sem que exista uma negociação policial visível do lado de fora.

Reino Unido: Rhianon Bragg

País de Gales · Reino Unido

Rhianon Bragg

15 de agosto de 2019

Rhianon Bragg havia mantido relacionamento de aproximadamente cinco anos com Gareth Wyn Jones.

Segundo registros policiais britânicos, a relação apresentou comportamento verbalmente abusivo, fisicamente abusivo e controlador. Rhianon encerrou o relacionamento em abril de 2019.

Depois da separação, o comportamento evoluiu para stalking, ameaças e perseguição.

Em 15 de agosto de 2019, Rhianon foi surpreendida na propriedade onde vivia. Jones a manteve por aproximadamente oito horas sob a mira de uma arma e ameaçou matá-la.

Rhianon sobreviveu. Jones foi preso e posteriormente condenado por crimes que incluíram stalking, cárcere privado, ameaça de morte e posse de arma de fogo com intenção de colocar vida em risco.

O caso passou a ser utilizado também em discussões e treinamento policial relacionados a violência doméstica e controle de armas.

Europa: dimensão da violência por parceiro íntimo

A pesquisa europeia harmonizada sobre violência de gênero realizada entre 2020 e 2024 ouviu 114.023 mulheres nos 27 Estados da União Europeia.

Aproximadamente 31% das mulheres relataram violência física, incluindo ameaças, ou violência sexual durante a vida adulta. Isso corresponde a cerca de 50 milhões de mulheres.

Entre mulheres que já tiveram parceiro, aproximadamente 18% relataram violência física ou sexual praticada por parceiro.

Quando a violência psicológica é incluída, aproximadamente 32% relataram violência praticada por parceiro ao longo da vida.

Dados detalhados da European Union Agency for Fundamental Rights apontaram ainda 10,7% para violência física por parceiro, 6,9% para estupro cometido por parceiro e 29,9% para violência psicológica por parceiro.

Homicídio doméstico na União Europeia

Dados do Eurostat referentes a 2023 registraram taxa de 4,1 mulheres por milhão vítimas de homicídio intencional cometido por familiar ou parceiro íntimo.

Entre homens, a taxa foi de 2,2 por milhão.

Entre 2015 e 2023, a taxa feminina europeia de homicídio cometido por familiar ou parceiro permaneceu aproximadamente entre 3,9 e 4,4 por milhão.

O padrão que merece atenção

Não existe um perfil único que permita prever com certeza quem cometerá homicídio, cárcere ou tomada de refém. Existem, porém, fatores e comportamentos que aparecem repetidamente nas pesquisas e nos casos.

  • violência anterior
  • controle intenso sobre a parceira
  • separação recente ou tentativa de separação
  • stalking e perseguição
  • ameaça de morte
  • ameaça utilizando arma
  • acesso a armas
  • estrangulamento anterior
  • isolamento da vítima
  • impedimento físico de sair
  • aumento de frequência ou intensidade da violência
  • envolvimento de filhos e familiares

Nenhum desses elementos isoladamente determina o futuro. Avaliação de ameaça trabalha com comportamento, evolução, capacidade e contexto, não com adivinhação.

A crise pode começar antes da barricada

Para quem observa uma ocorrência pela televisão, o caso começa quando chegam viaturas, negociadores e equipes especializadas.

Para análise de comportamento, aquele momento pode representar apenas a fase mais visível de uma sequência muito mais longa.

No caso Eloá havia uma relação terminada antes da invasão do apartamento. No caso Rhianon Bragg havia abuso, separação, stalking e ameaça antes das oito horas de cárcere armado. Nos estudos de Campbell, controle, separação, ameaça e acesso a armas aparecem associados à violência letal.

O estudo de estrangulamento mostra a mesma lógica: um comportamento anterior que não matou a vítima naquele momento pode ter forte relevância para avaliação de risco futuro.

É possível terminar uma crise com sucesso?

Sim. Grandes bases de negociação registram milhares de crises encerradas por rendição, libertação das vítimas e prisão do agressor.

No conjunto de 10.569 ocorrências analisadas no HOBAS, 53% tiveram negociação e rendição como resultado registrado e 96,9% terminaram sem ferimentos em outras pessoas segundo a variável utilizada pelo estudo.

Isso não elimina o risco. Existem ocorrências que terminam em homicídio, suicídio, homicídio seguido de suicídio, ferimentos, intervenção tática ou morte do agressor.

Uma pessoa estar conversando com negociadores não significa que o perigo terminou. Da mesma forma, a existência de arma não determina por si só que uma operação terminará em confronto.

Leitura COMBATIVES

O ponto principal para proteção não é ensinar uma pessoa comum a realizar negociação policial de reféns.

Quando uma ocorrência chega a esse estágio, ela pertence a profissionais especializados e às forças responsáveis pela resposta.

Para prevenção, o ponto mais importante está antes.

Entender histórico de violência, controle, isolamento, perseguição, ameaças, acesso a armas e escalada permite reconhecer que determinados comportamentos não devem ser tratados como episódios independentes.

Em violência doméstica, uma situação de cárcere ou refém pode ser a fase visível de uma escalada iniciada muito antes.

Essa é a lógica de proteção adotada pela COMBATIVES: comportamento, percepção, prevenção, proteção e capacidade de resposta.

Conclusão

Situações de cárcere e tomada de refém relacionadas à violência doméstica são reconhecidas na literatura internacional de violência por parceiro íntimo e de negociação de crises.

Os Estados Unidos possuem a base operacional mais extensa entre as fontes públicas utilizadas neste estudo por meio do HOBAS. O Brasil possui dados importantes sobre feminicídio, violência doméstica e cárcere privado, mas ainda não oferece uma base pública nacional diretamente comparável para crises negociadas com reféns.

A União Europeia possui grandes pesquisas populacionais e estatísticas harmonizadas sobre violência por parceiro íntimo e homicídio doméstico, mas também não apresenta uma base operacional diretamente equivalente ao HOBAS.

Para análise séria, os números precisam permanecer em suas categorias corretas. Estatística de feminicídio não é estatística de refém. Registro de cárcere privado não significa necessariamente uma crise policial negociada. Resultado do HOBAS nos Estados Unidos não pode ser apresentado como taxa brasileira.

O que as diferentes fontes permitem observar em conjunto é a importância do comportamento anterior à crise. Em muitos casos, a violência extrema não aparece sem contexto. Ela é precedida por uma sequência que pode incluir controle, ameaças, perseguição, isolamento, agressões anteriores, acesso a armas e perda de controle sobre a vítima.

Referências e fontes

FBI, HOBAS e negociação de crises

Pace, S. A. et al. Predictors of Successful Resolutions and Avoidance of Harms in Crisis Negotiations: An Analysis of the FBI's HOBAS Database from 1982 to 2023. Journal of Police and Criminal Psychology, 2025. DOI 10.1007/s11896-025-09738-6.

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Van Hasselt, V. B. et al. Hostage-Taking in the Context of Domestic Violence: Some Case Examples. Journal of Family Violence, volume 20, número 1, 2005. U.S. Department of Justice, NCJ 209692.

Violência por parceiro íntimo e letalidade

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Brasil

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Casos reais

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União Europeia

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