COMBATIVES · RESEARCH · UNITED STATES
O que acontece entre a resistência e o controle?
Nos Estados Unidos, alguns dos estudos mais úteis não contam apenas quantas vezes uma técnica foi utilizada. Eles acompanham resistência, contato físico, repetição da força, lesões e o momento em que o confronto termina.
PRIMEIRO · UMA DIFERENÇA IMPORTANTE
Os Estados Unidos não têm uma base nacional equivalente à inglesa.
A coleta nacional do FBI concentra-se nos eventos com morte, lesão corporal grave ou disparo de arma de fogo contra ou na direção de uma pessoa. Isso não representa todo o universo de controle físico.
Como a cobertura estava abaixo do limiar de 80%, o FBI não publicou uma estimativa nacional do número de incidentes nessa atualização.
24.380 OCORRÊNCIAS · 12 DEPARTAMENTOS
Contato físico não significa baixo risco físico.
Na análise multiagência, o uso de força física apareceu associado ao aumento das chances de lesão tanto do policial quanto da pessoa.
Nível de força e risco físico não são a mesma variável.
Uma intervenção considerada relativamente baixa numa escala de uso da força pode exigir que o policial entre em contato corporal direto com uma pessoa que continua resistindo.
Associação não demonstra que o contato físico, isoladamente, tenha causado a lesão. Resistência e características da ocorrência também influenciam quais formas de controle são utilizadas.
RESISTÊNCIA
Quanto maior a resistência, maior o risco observado.
Nos modelos multiagência, níveis crescentes de resistência estiveram associados ao aumento do risco de lesão da pessoa e do policial. O aumento foi especialmente pronunciado para os policiais.
A técnica não pode ser analisada sem a resistência.
Comparar lesões entre técnicas sem considerar a intensidade do confronto pode confundir a forma de controle utilizada com a própria complexidade da ocorrência.
FORCE DEFICIT
E se uma das variáveis mais importantes for quantas tentativas foram necessárias?
Um estudo de cinco anos em duas agências da Flórida analisou a força como sequência. Os pesquisadores utilizaram o conceito de Force Deficit para examinar aplicações que não conseguiam encerrar a resistência e exigiam nova intervenção.
As lesões aumentavam com a segunda e a terceira aplicações.
O estudo desloca a pergunta de “qual técnica foi usada?” para outra: “quantas aplicações foram necessárias até terminar o confronto?”.
2.395 CONFRONTOS · PRIMEIRA ITERAÇÃO
Conseguir controle na primeira aplicação.
Percentual de confrontos encerrados na primeira aplicação de cada opção no estudo. Não representa uma classificação universal de eficácia.
LUTA NO CHÃO
O solo aparece dentro de um problema maior: a luta que ainda não terminou.
Em análises de departamentos específicos, pesquisadores relataram que grande parte das lesões ocorreu quando policiais e pessoas lutavam no chão.
O chão não deve ser tratado apenas como uma posição.
A pergunta operacional é como a ocorrência chegou ao chão, se a resistência continuou, quantas tentativas de controle ocorreram e em que momento surgiu a lesão.
ARIZONA · 2024 · NÚMERO DE OPERADORES
Quantos policiais estavam envolvidos?
Uma variável básica costuma desaparecer das discussões sobre uso da força: quantos policiais estavam envolvidos quando o controle precisou ser realizado.
O número de operadores precisa entrar na análise.
Esses dados mostram quantos policiais estavam envolvidos, mas não demonstram que dois ou três policiais produzam automaticamente menos lesões. Para responder isso é necessário cruzar número de operadores, resistência, forma de controle, duração e resultado.
Arizona Criminal Justice Commission · 2024 Use of Force Report. Nos registros com múltiplos policiais, houve ocorrência envolvendo até nove policiais para uma pessoa.
WASHINGTON D.C. · DERRUBADA
Derrubar não é uma ocorrência rara.
Os relatórios de Washington D.C. permitem enxergar uma parte da mecânica do controle que normalmente desaparece das estatísticas nacionais.
Uma pergunta aparece imediatamente.
Quando uma pessoa precisa ser levada ao chão, existe diferença entre um policial tentar fazer isso sozinho e vários policiais realizarem o controle em conjunto?
Os 34% e 16% referem-se ao maior nível de força registrado nas ocorrências de Washington D.C. em 2017. Os 47% pertencem ao relatório de 2025. Os períodos não devem ser tratados como uma série diretamente comparável.
CONTATO FÍSICO · MÃOS E BRAÇOS
Grande parte do uso da força acontece muito perto.
Estudos americanos mostram que formas frequentes de força não envolviam tiros, bastões ou outras ferramentas. Eram ações físicas de controle.
O cotidiano físico da prisão está no contato.
Agarrar, segurar, controlar e impedir movimento aparecem com grande frequência. São justamente situações nas quais o policial precisa reduzir a distância e entrar em contato corporal.
Os números vêm de estudos diferentes e não devem ser somados. Os dados de 77% e 64% pertencem ao estudo histórico de Miami. Os percentuais de 15,8% e 2,1% vêm do estudo de 7.512 prisões em seis jurisdições.
ALGEMAMENTO · UM PONTO CEGO
Colocar a algema não é apenas o final administrativo da prisão.
Para estudar controle físico é necessário saber o que acontece enquanto o policial tenta controlar os braços e colocar as algemas. Mas os sistemas americanos nem sempre registram essa fase da mesma forma.
O número de 3% não representa necessariamente toda a resistência durante o algemamento.
Em Washington D.C., naquele período, as regras de registro não obrigavam que toda resistência durante o algemamento aparecesse como ocorrência de uso da força. O próprio relatório chama atenção para a possibilidade de subcontagem.
Esse problema é metodologicamente importante: ausência de registro não significa necessariamente ausência do comportamento.
ESTUDO MULTICÊNTRICO · REVISÃO MÉDICA
Mais de um milhão de chamadas. 893 ocorrências de força.
1.399 APLICAÇÕES DE FORÇA
O contato físico foi a modalidade mais frequente.
914 PESSOAS
Lesões significativas foram raras nessa amostra.
As lesões significativas concentraram-se principalmente nos eventos envolvendo armas de fogo e/ou cães.
HOSPITALIZAÇÃO
Ser hospitalizado não significa ter sido lesionado pela força policial.
Relacionadas à força
Não relacionadas à força
Hospitalização é um resultado. Não é um mecanismo de lesão.
Nesse estudo, três em cada quatro hospitalizações tinham razão não relacionada à lesão produzida pelo uso da força.
DUAS PERGUNTAS DIFERENTES
Produzir controle e produzir lesão não são a mesma medida.
O estudo de cinco anos encontrou elevada capacidade dos cães policiais para terminar confrontos na primeira aplicação. Em outra análise, o uso de cães apresentou forte associação com lesão da pessoa.
Efetividade
Quanto rapidamente a intervenção encerrou o confronto.
Segurança
Qual foi a frequência e a gravidade das lesões associadas.
Efetividade ≠ segurança.
Uma única escala não descreve adequadamente as duas dimensões.
7.512 PRISÕES · SEIS JURISDIÇÕES
A maior parte da força estudada não envolvia armas.
A ação sem arma mais frequente era simplesmente agarrar.
A pesquisa recomendou maior atenção justamente às formas frequentes e menos severas de força, e não apenas aos eventos extremos.
TREINAMENTO · ICAT
Treinamento pode alterar resultados de campo. Mas não automaticamente.
Na avaliação do ICAT em Louisville, após o treinamento foram observadas reduções no uso da força e nas lesões.
Mas o efeito enfraqueceu com o tempo.
Os pesquisadores observaram perda de aderência ao treinamento quando o modelo não era reforçado pela supervisão.
ESTUDO RANDOMIZADO · 2026
Melhor comunicação. O uso da força não caiu.
Outro experimento avaliou treinamento de redução de conflito utilizando registros administrativos e observação sistemática de imagens de câmeras corporais.
Comportamentos intermediários
Resultado operacional
Melhor comunicação não equivale automaticamente a menos força.
Programas diferentes podem modificar comportamentos diferentes e produzir resultados operacionais diferentes.
CÂMERAS CORPORAIS · PESQUISA
Vídeo também pode virar dado.
Pesquisadores já utilizam observação sistemática das imagens das câmeras corporais. Isso permite registrar elementos que frequentemente desaparecem dos relatórios administrativos.
O QUE OS REGISTROS AINDA NÃO MOSTRAM BEM
Sabemos que houve lesão. Muitas vezes ainda não sabemos exatamente como ela aconteceu.
As grandes bases permitem identificar resistência, técnica, arma, lesão e resultado. Mas várias perguntas físicas importantes continuam sem resposta consistente.
Essas ausências também são um resultado da pesquisa.
Até aqui não encontramos base americana robusta que permita afirmar, por exemplo, qual percentual de policiais lesionados estava por baixo no chão, quantos foram atacados por terceiros durante a contenção ou qual posição corporal produziu a lesão.
UMA UNIDADE DE ANÁLISE MAIS COMPLETA
Da abordagem à algema.
Os dados americanos sugerem que registrar apenas a técnica utilizada é insuficiente. Para entender a ocorrência é necessário reconstruir a sequência.
A pergunta deixa de ser apenas “qual técnica foi usada?”.
Passa a ser: quantos operadores estavam presentes, como começou o contato, quantas tentativas foram necessárias, como ocorreu a transição para o chão, quando a pessoa foi controlada e em que momento alguém se lesionou.
O QUE OS ESTUDOS AMERICANOS ACRESCENTAM
Talvez a técnica isolada não seja a principal unidade de análise.
A variável a investigar: tempo e tentativas até o controle.
Contato físico, resistência, repetição da força, luta no chão e lesões aparecem conectados em diferentes estudos. A sequência precisa ser medida, não presumida.
A PESQUISA POR TRÁS DOS NÚMEROS
Não são exemplos. São milhares de ocorrências reais.
Effect of Less-Lethal Weapons on Injuries in Police Use-of-Force Events
Registros de 12 departamentos policiais, 1998–2007. Análise das lesões de policiais e pessoas e dos efeitos associados a diferentes formas de força.
National Institute of Justice · pesquisa financiada pelo NIJ.
Injuries Associated with Police Use of Force
Estudo prospectivo multicêntrico em três agências. Médicos revisaram registros policiais e médicos para classificar gravidade e relação das lesões com o uso da força.
Bozeman et al. · Journal of Trauma and Acute Care Surgery · 2018.
Less Lethal Weapon Effectiveness: A Five-Year Analysis
Análise temporal de resistência, aplicações sucessivas de força e capacidade de terminar o confronto na primeira aplicação.
Mesloh · Henych · Wolf · 2008 · NCJ 224081.
Understanding the Use of Force By and Against the Police
Seis jurisdições. Uso da força policial, força utilizada contra policiais, severidade, armas e formas de controle sem arma.
Garner · Maxwell · National Institute of Justice · 2002 · NCJ 196694.
Arizona 2024 Use of Force Report
O relatório permite observar a relação numérica entre policiais e pessoas envolvidas nos registros de uso da força.
Arizona Criminal Justice Commission · 2024.
Washington D.C. Use of Force
Relatórios do Metropolitan Police Department permitem separar formas de controle físico e acompanhar a presença de derrubadas nas ocorrências.
Office of Police Complaints · Washington D.C.
Police de-escalation training and its effects on communication
Experimento randomizado com observação sistemática de imagens de câmeras corporais e registros administrativos de uso da força.
McLean · Bussey · Nix · Rojek · Alpert · Journal of Criminal Justice · 2026 · NCJ 311156.
REFERÊNCIAS PRINCIPAIS
Dados oficiais, estudos empíricos e registros operacionais.
24.380
Less-Lethal Weapons & Injuries
Estudo multiagência sobre força, ferramentas menos letais e lesões.
1.041.737
Injuries Associated with Police Use of Force
Estudo multicêntrico com revisão médica das lesões.
2.395
Force Deficit · Five-Year Analysis
Aplicações sucessivas de força e término do confronto.
7.512
Use of Force By and Against Police
Seis jurisdições e milhares de prisões analisadas.
66,7%
Número de operadores · Arizona
Relação entre número de policiais e pessoas nos registros de uso da força de 2024.
47%
Derrubadas · Washington D.C.
Relatórios anuais sobre formas de força, incluindo derrubadas e controles físicos.
77%
Mãos, braços e controle físico
Dados históricos sobre formas frequentes de força, resistência e lesões durante contato físico.
2026
Treinamento + câmeras corporais
Observação sistemática de vídeo e resultados operacionais.
FBI
National Use-of-Force Data Collection
Coleta nacional americana concentrada nos eventos graves de uso da força.